Porque Prometeu ousou ser mais inteligente que o Grande Deus, a caixa de Pandora foi aberta pelo Grande Tolo, Epimeteu. Todos os males, todos os crimes, se espalharam pelo universo. Apenas um Dom permaneceu trancafiado. Mas hoje digo aos homens que descobri a caixa funesta. E soltei a Esperança.
Crimes literários de Rodrigo Della Santina
2 de maio de 2012
1 de abril de 2012
19 de março de 2012
O gafanhoto
Salta gafanhoto.
Aparta-te da civilização.
(Vais ligeiro.
Vais para a grama a que pertences.
A longos e grandes saltos...).
Eu, que te vejo,
Invejo o teu salto.
Num único segundo tens a graça do vento e o calor do sol...
Aparta-te da civilização.
(Vais ligeiro.
Vais para a grama a que pertences.
A longos e grandes saltos...).
Eu, que te vejo,
Invejo o teu salto.
Num único segundo tens a graça do vento e o calor do sol...
14 de fevereiro de 2012
Dedicatórias em livros
Algumas pessoas têm o costume de, ao adquirir um livro, assinar nele seu nome. Outras, ainda, de o datarem. Eu não faço nada disso. Não faço também oposição alguma. Tenho um amigo que possui tal hábito. Já me presenteou vários livros e neles sempre há seu nome e a data que os adquiriu.
Não sou daqueles que acha um crime rabiscar um livro. Pelo contrário: acho que um bom livro tem de estar rabiscado, tem de ser velho, cheirar a 1888, ter as páginas amarelecidas, a lombada um pouco gasta... Não é que eu não goste dos livros novos. Gosto. Tanto quanto. Mas os antigos me dão a sensação de terem sido escritos em épocas que eu gostaria de ter ao menos presenciado...
Mas eu dizia que não acho um crime rabiscar um livro, tracejar algumas frases, circular algumas palavras e fazer anotações. Acho que isso diz muito da pessoa que o manuseia. Por exemplo.
Possuo o livro “Cânticos”, da Cecília Meireles, 3ª edição da Editora Moderna feita em 1983. Nele há anotações (e são muitas) de alguém que provavelmente era jovem e principiava os estudos sobre poesia, pois os versos estão divididos silabicamente e com seus significados ao lado, próprio de quem o tomou apenas para passar nas provas escolares.
Da mesma autora tenho as “Poesias completas”, da Civilização Brasileira, de 1974, que reúnem “Poemas de viagens”, “Poemas italianos” e “O estudante empírico”. Ali o dono limitou-se a escrever se gostara muito, pouco ou nada do poema. Percebe-se, pela escrita abreviada, que devia ser uma pessoa irrequieta, talvez com uma rotina agitada, que lia aquilo para um trabalho de faculdade ou por consideração a alguém que lhe era caro e devia ter lhe dado o livro.
Mas o que mais me fascina são as dedicatórias na contracapa. Acho gostoso ir a um sebo e encontrá-las nas minhas aquisições, como cartas que o mar conduz. Elas contam histórias, sugerem sentimentos, esboçam imagens de lugares e tempos afastados.
No livro “Sonata do desencanto”, de Cleómenes Campos, Editora Saraiva, 1950, uma tal Nair de Campos oferece a um amigo, “com o máximo respeito e o mais sincero aprêço”, os versos que ali vão. Ela escreve de Mogi das Cruzes, em 28-11-952.
Já em “A flor, o pássaro e o vento”, de Maria Thereza Galvão, um livro de sonetos editado pela Livraria Martins Editôra em 1966, a coisa é um pouco mais íntima. Nele é a própria autora quem faz a dedicatória, demonstrando uma proximidade para com os agraciados que remonta a épocas mais tranqüilas e frutuosas.
O que muito me cativa nessa dedicatória é o fato de ela ter sido feita em 13-08-1981, nove dias antes do meu nascimento. Quem poderia imaginar, a autora poderia imaginar que seu livro um dia estaria nas mãos de um que nasceu 15 anos após sua publicação? Poderia ela imaginar que a sua proximidade para com aqueles seria agora a minha proximidade para com ela?
Isso, esse encontrar vestígios de vida de outras pessoas nos livros, que não o próprio autor e sua obra, participar um pouco de certo momento de suas vidas, imaginar como viviam, se ainda vivem e como estão, o que sentiam na hora que escreviam, supor o antes e o depois, essa relação com o passado, com a história de outros, é para mim fascinante.
Em “Os melhores poemas de Fernando Pessoa”, Global Editora, 1994, há uma das dedicatórias mais familiares que já tive o prazer de encontrar nos livros da vida. Transcrevo-a na íntegra abaixo, e deixo que você, meu leitor, sinta-a por si próprio.
“Isabella
Eis aqui um dos maiores poetas da língua portuguesa. Conhecê-lo é fundamental, amá-lo é inevitável! Sua poesia é para toda a vida, quem o conhece jamais tira seus livros da cabeceira. Você que quer fazer Comunicação conviverá com ele para sempre. Leia-o e sinta-o e concentre-se, com certeza você vai amá-lo e à língua portuguesa.
Feliz Natal
e
95 na faculdade!
Boa sorte.
Carol, Mimi e Gidinho”
É certo que os donos não tiveram consideração por aqueles que os presentearam, especialmente nossa Isabella, que parece não ter amado como queriam os seus agraciadores ao seo Pessoa, já que tais livros se encontram nas minhas mãos. Mas se não fosse isso eu não teria me relacionado com essas almas literárias, sentido um pouco de sua existência.
Acho que as dedicatórias são um livro à parte.
1 de fevereiro de 2012
Saudade, saudade...
Saudades da minha casa,
Saudades do meu Amor;
Do gosto das acerolas,
Do charme do beija-flor...
Saudades do meu sossego;
Dos livros na minha estante;
Das horas de verso e prosa,
Das páginas marulhantes.
Saudades do meu café,
Da varanda onde me sento,
Do canto das avezinhas
E do cavalgar do tempo...
Saudades até da chuva
E do vento que lá há;
Pois aqui o vento não venta
Como venta o vento lá.
Ah saudades!...
Saudades da minha casa,
Saudades do meu Amor!
Do gosto das acerolas,
Do charme do beija-flor!
Saudades do meu Amor;
Do gosto das acerolas,
Do charme do beija-flor...
Saudades do meu sossego;
Dos livros na minha estante;
Das horas de verso e prosa,
Das páginas marulhantes.
Saudades do meu café,
Da varanda onde me sento,
Do canto das avezinhas
E do cavalgar do tempo...
Saudades até da chuva
E do vento que lá há;
Pois aqui o vento não venta
Como venta o vento lá.
Ah saudades!...
Saudades da minha casa,
Saudades do meu Amor!
Do gosto das acerolas,
Do charme do beija-flor!
18 de janeiro de 2012
Talvez
Talvez eu queira tua presença,
Talvez tua dor me faça bem,
Talvez eu leia no teu rosto
Aquilo que eu ainda não sei.
Talvez eu veja a tua alegria,
Talvez tua solidão eu veja.
Seja o que for não pode ser
Pior do que minha tristeza.
Talvez eu queira, assim, teu beijo,
Talvez, que me dês cabo à vida...
Perdão ― se sou indelicado,
Perdão ― se és para mim bonita.
Talvez tua dor me faça bem,
Talvez eu leia no teu rosto
Aquilo que eu ainda não sei.
Talvez eu veja a tua alegria,
Talvez tua solidão eu veja.
Seja o que for não pode ser
Pior do que minha tristeza.
Talvez eu queira, assim, teu beijo,
Talvez, que me dês cabo à vida...
Perdão ― se sou indelicado,
Perdão ― se és para mim bonita.
15 de janeiro de 2012
O pé de acerola
Onde eu moro tem um pé de acerola que todo verão fica carregadinho, vermelhinho. O pé não é meu; do meu vizinho. Mas todos nós aproveitamos pra destacar uma ou duas (às vezes três) acerolas do galho. Um primo distante que está de visita, enquanto conversa sobre as viagens que fez à Europa; a tia que sempre foi a mais expansiva de suas irmãs; o vizinho que passa pra cumprimentar; o carteiro que entrega a correspondência em mãos; o técnico da internet; o que monta armários, ninguém vê mal algum em apanhar uma ou duas frutinhas. Dizem que uma acerola vale por quatro laranjas. Então pegamos três, que é pra valer por doze e tudo ficar perfeito.
E não são apenas homens e mulheres que usufruem desse pé. Joões-de-barro edificam ali suas casinhas; passarinhos dos mais diversos fazem reunião em seus galhos; pombas constroem nele seus ninhos para proteger suas crias. E se a chuva ou a ruindade humana vem destruí-los, elas retomam a busca por novos galhos.
Outro dia um beija-flor volitava defronte do pé. Tinha o peito azul. Sustentava-se no ar com muito garbo, apesar do aparente esforço que fazia. Era curioso vê-lo ali, como que namorando o pé de acerola.
Lembrei-me de certa vez em que fui de férias à praia. Eu tinha uns 16 anos. Adorava o mar e me gabava de vencer suas ondas. Talvez sentindo isso foi que tempos depois esse mesmo mar me jogou aos pés de uma senhora gorda e lambuzada de protetor solar quando tentei surfar de corpo nu uma de suas ondas. Mesmo assim tal experiência foi singular, pois houve um momento em que eu não senti sobre mim a pressão natural das águas e ao abrir os olhos vi-me realmente na crista da onda.
Mas enfim. Eu tinha uns 16 anos. O tempo fechara e poucos permaneciam no mar. Toda a minha família tinha se refugiado debaixo de um quiosque. Começara a chover. Mas eu me deixava ali, a balouçar com o mar. À minha esquerda havia uma garota, que fazia o mesmo. Era morena, cabelos encaracolados, aparentava meiguice, timidez, mas uma que esconde algum capricho. Realmente muito bonita.
Nesse momento eu vi algo verdadeiramente fantástico. Ao longe, quase na linha dos barcos no alto-mar, emergira uma mulher. Não a divisei muito bem de início. Mas pouco a pouco pude ver que era loura, esbelta, alta e de uma alvura incomum. Lentamente nadou até mim. Então pude vê-la melhor. Tinha todas as características descritas acima, só que mais avigoradas. Era a Vênus de Botticelli. Olhava-me fundo nos olhos; a mão esquerda se fazia de apoio ao meu rosto. Por fim, com doçura e certa gravidade, muito similar talvez a de quando acorreu aos lusíadas, beijou-me os lábios.
Há muitos minutos que eu e a garota da praia flertávamos. Mas eu não conseguia me aproximar, puxar conversa, convidá-la a passear. Receava bancar o tolo, ser repelido, apesar do flerte, não ser belo o bastante. A chuva apertou e ela deixou o mar. Eu ainda lá permaneci por algum tempo, fingindo que aquilo não me afetara, que meu interesse era o mar e o mar somente; que eu era, seria, um aventureiro marítimo, um desbravador do oceano, um lobo do mar, como Wolf Larsen...
O fato é que agora aquele beija-flor do peito azul flertava com o pé de acerola. Era curioso. Era bonito.
Pouco demorou esse flerte. Logo o beija-flor se foi. Provavelmente flertar com outros pés de acerola; talvez uma palmeira, um coqueiro, quem sabe um pé de canela.
Esse pé de acerola é para mim maravilhoso. Já não é mais patrimônio de um só, mas de todos aqueles que o sabem importante, homens, mulheres e beija-flores.
9 de janeiro de 2012
Um projeto, um blog, um convite
Começo este ano de 2012 não com a preocupação de que ele acabe, mas sim com a ótima oportunidade de levar meus textos ao alcance de outros leitores, interessados, como eu, como você, meu caro leitor, em literatura e artes. E essa oportunidade se chama “Obvious Lounge”, espaço que o Obvious abre aos seus leitores/escritores para divulgar suas produções, adquirir conhecimento e conquistar novas amizades.
Feita esta introdução, digo a você, meu caro leitor, que eu me propus a fazer parte desse excelente projeto e agora possuo uma página só minha para a composição de meus versos, de meus contos e crônicas. Ela se intitula “O limiar da lucidez”.
Convido você a visitá-la e apreciar (se minhas letras puderem tanto) meus arranjos literários lá afixados. Assim, você também poderá se informar mais acerca desse projeto e quem sabe se tornar um lounger.
Um abraço,
Rodrigo Della Santina
28 de dezembro de 2011
Frio
Acordei cinza.
Dentro de casa
Um ar branco
Paira no teto.
Tiro a pressão
― Pálida.
Sorvo uma sopa
Transparente.
...
Sobre o meu corpo
O pelo
Antigo
De fracos
Animais...
Sobre os meus olhos
O mármore
Moldando
Os sonhos
De Miguel...
*
A boca expele um último insulto
Antes
da vinda
da noite...
Dentro de casa
Um ar branco
Paira no teto.
Tiro a pressão
― Pálida.
Sorvo uma sopa
Transparente.
...
Sobre o meu corpo
O pelo
Antigo
De fracos
Animais...
Sobre os meus olhos
O mármore
Moldando
Os sonhos
De Miguel...
*
A boca expele um último insulto
Antes
da vinda
da noite...
15 de dezembro de 2011
Sofro ao infinito com a discussão das pedras e da chuva
1.
Sofro ao infinito com a discussão das pedras e da chuva.
Toda a natureza em meu redor se deforma
se altera
se completa
Todos os animais se justificam na própria existência
― passada ou presente
(e até futura).
A terra, o sol, a lua, as estrelas,
Todas as coisas se conformam no meu pesar
Todos os homens dialogam na minha alma
E o vento
[que se imagina pacificador]
Eleva
O fogo
E varre
As cinzas...
2.
Tenho a alma delicada.
3.
4.
Nunca me recuperei dessa visão.
5.
Agora estou no meu quarto escrevendo para as traças
Ouvindo a chuva arguir com as pedras uma canção sem data
Como uma partida de xadrez empoeirada.
E estou em xeque de mim mesmo.
Sofro ao infinito com a discussão das pedras e da chuva.
Toda a natureza em meu redor se deforma
se altera
se completa
Todos os animais se justificam na própria existência
― passada ou presente
(e até futura).
A terra, o sol, a lua, as estrelas,
Todas as coisas se conformam no meu pesar
Todos os homens dialogam na minha alma
E o vento
[que se imagina pacificador]
Eleva
O fogo
E varre
As cinzas...
2.
Tenho a alma delicada.
3.
(Faz alguns meses eu vi um tigre. Seu corpo se estendia ao infinito. Sua pele era de um laranja fulgurante. Suas listras, diferentes e iguais entre si, pareciam conter algum segredo, linguístico, atemporal. Como o de Pandora).
4.
Nunca me recuperei dessa visão.
5.
Agora estou no meu quarto escrevendo para as traças
Ouvindo a chuva arguir com as pedras uma canção sem data
Como uma partida de xadrez empoeirada.
E estou em xeque de mim mesmo.
Assinar:
Postagens (Atom)